sábado, 27 de maio de 2017

Saudades do Inverno




A ironia do calor. Quando aperta, perde-se a vontade de sair. O frio é-me muito mais agradável. Entre o Palácio dos Aciprestes e o Museu da Eletricidade.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O Último Europeu



Miguel Real (2015). O Último Europeu. Lisboa: D. Quixote.

Há algo de incongruente quando lemos as tentativas de escritores mainstream na ficção científica. Alguns nem vale a pena lê-los, pelo óbvio desrespeito a um género que ironizam com desprezo. Depois, há aqueles que se nota que levam o género a sério, fizeram um esforço, algumas leituras bem escolhidas, e perceberam a mecânica da ficção científica e a sua iconografia. O leitor mais conhecedor não consegue deixar de sorrir com as construções de mundos ficcionais, com as descrições de tecnologias e sociedades futuristas. Percebemos o esforço do escritor mainstream, mas não conseguimos deixar de pensar que tantos escritores de ficção científica já fizeram algo semelhante, e melhor. Parte deste livro de Miguel Real é assim, um futurismo que se aguenta enquanto obra de um escritor que não pratica FC, mas que não sobreviveria dentro do género. Mas estaria a ser injusto se reduzisse a apreciação desta leitura a este aspecto, porque se Miguel Real é, do ponto de vista de um leitor apreciador de FC, bastante desastrado no seu futurismo, compreende perfeitamente uma das principais funções da ficção científica especulativa: compreender melhor o mundo que nos rodeia, projectando-o em futuros prováveis ou improváveis.

A reflexão de Miguel Real neste Último Europeu é sobre em que Europa pensamos que vivemos, o que é isso, realmente, de ser europeu no mundo contemporâneo. A resposta é difícil, e não surpreende que o final do livro seja amargo, com a extinção final de uma Europa encarnada no último homem que leva consigo para a campa, imutáveis, os seus valores e ideais, extintos ou corrompidos num mundo implacável.

Neste futuro imaginado de Miguel Real, a Europa é um bastião de perfeição num mundo convulsivo. A Europa representa a sociedade perfeita, pós-escassez, tecnologicamente avançada, rigorosa, humanista e liberta das piores pulsões da alma humana, com o individualismo suprimido e o racionalismo como valor maior. Mas é também rarefeita e de elite, coexistindo no seu território com uma outra europa, bárbara, nacionalista, guerreira e dividida. A analogia ao nosso ideário de Europa e unidade europeia face à realidade da europa contemporânea, onde as velhas pulsões que se julgavam extintas face ao imperar de elites esclarecidas se sentem a regressar ao de cima, é óbvia. Uma Europa que se encontra ameaçada pelos asiáticos, social e tecnicamente inferiores, mas que encontram forma de invadir a europa e dizimar os europeus. A utopia europeia, pacifista, indefesa e que não ser verga, perece aí, sem sobreviventes. A escolha para a sobrevivência era entregar os seus avanços tecnológicos a uma sociedade bélica que almeja o domínio planetário, e ver os seus cidadãos entregues ao esclavagismo na sempre explorada África.

Sobrevive um punhado de europeus, escolhido pelo conselho de dirigentes europeus para não deixar extinguir a chama do ideal europeu. O local escolhido para refúgio fica numas ilhas semi-arruinadas por vulcanismo, no meio do oceano atlântico, um território que pertence ao império americano, um dos outros grandes blocos políticos deste futuro ficcional. Será nos açores que a europa perfeita poderá renascer, seguindo um plano rígido de crescimento demográfico e transmissão de valores. Mas as circunstâncias tudo mudam e o que se julgava a reconstrução de uma sociedade perfeita altera-se em função das vontades dos indivíduos, longe do racionalismo original, e terminará em genocídio.

Num mundo violento, quer na ásia desesperada por territórios e recursos, na américa isolada e tecnocrata, na oceania racista ou na américa do sul dominada por esclavagistas, o ideal progressivo de uma sociedade que se aperfeiçoou é um perigo. A escuridão não tolera raios de luz, e as utopias têm, inevitavelmente, de sofrer a amargura da sua derrocada.

É esta reflexão que torna o livro de Miguel Real como obra que vinda de alguém claramente externo ao campo da ficção especulativa, merece ser lida com atenção pelos fãs de FC (uma comunidade que, diga-se, por cá está mais em vias de extinção do que os novos europeus do romance). Real toca no que nos incomoda no mundo do século XXI, em que os ideais progressistas e humanistas do século XX parecem ter falhado, onde a globalização é desculpa para novos totalitarismos e desrespeito pela condição humana. A própria Europa sofre da dicotomia que Real caracteriza no romance, a separação entre um ideal progressista e uma realidade cada vez mais fragmentada, com a divisão entre elites esclarecidas e um conjunto cada vez maior de cidadãos que se sente alienado e procura a sua voz no recrudescer das velhas pulsões violentas. Sem ilusões, a amargura da utopia é o conhecimento que para lá dos portões, os bárbaros aguardam-nos, sempre, recusando redenções e elevações. Certeiro e surpreendente, este romance, apesar dos desajeitos de género que lhe acabam por conferir um certo encanto de inocência num género literário específico.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Jessica Jones: Avenger



Brian Bendis, Michael Gaydos (2016). Jessica Jones: Avenger. Nova Iorque: Marvel Comics.

A piada de Jessica Jones reside no seu estatuto de super-heroína falhada, encarnando uma versão feminina neurótica e problemática de Philip Marlowe, tendo o foco central dos comics da Marvel como pano de fundo e não centro da acção. Esta inversão dos pressupostos do género, com os super-heróis como elemento de cenário e não o foco das atenções, refresca um género que os fãs, convenientemente, esquecem ser repetitivo e sobre-explorado. No entanto, os crossovers entre série são inevitáveis, com a popularidade da personagem. Nas histórias coligidas neste livro, Bendis mete uma incerta Jessica Jones no meio da continuidade dos Vingadores, em episódios onde surge como quase-heroína, ou alguém que se afasta do grupo. Noutras, histórias individuais, interage com os heróis durante as suas investigações. Termina com um What If que imagina Jones como uma super-heroína no sentido tradicional. Não traz em si nada de novo, apenas colige extensões da série Jessica Jones noutros títulos da Marvel.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Ark of the Stars



Frank Borsch (2015). Perry Rhodan Lemuria #1: Ark of the Stars. Rastatt: PMW

A série Perry Rhodan não pretende ser mais do que o que é, uma série de FC de entretenimento, essencialmente uma longa e interminável Space Opera onde o imortal Rhodan vive sucessivas aventuras. A escala da série é cósmica, como não poderia deixar de ser com mais de quarenta anos de publicação mensal regular. São raras as suas incursões fora do espaço germanófilo, e esta edição de cinco livros da recente série Lemuria em inglês uma boa surpresa para aqueles que são fãs do personagem mas incapazes de ler em alemão.

O início de Lemuria coloca Rhodan a bordo de uma nave de prospecção numa zona disputada da galáxia. Por acaso, cruzam-se com um misterioso artefacto nas vias espaciais, que se revelará ser uma nave geracional lemuriana. Partida há milénios do planeta que se viria a tornar a Terra, representa um vestígio vivo de uma civilização antiga, que nos mythos de Rhodan surgiu na Terra, se espalhou pelo espaço, e colapsou em guerra com alienígenas invasores. O seu colapso deixou vestígios, sendo os lemurianos antecessores dos humanos na Terra, e das suas colónias sobreviventes evoluíram as principais civilizações alienígenas humanóides da série, Arkon e Akon.

Esta é uma história contada em múltiplos pontos de vista. Mergulhamos dentro do mundo fechado da nave lemuriana, onde nos deparamos com uma sociedade fossilizada e regredida, que desconhece e teme o mundo exterior, controlada pelo computador de uma nave que, com o passar dos milénios, cada vez mais mostra sinais de degradação. O computador é implacável a perseguir aqueles que se desviam da linha de comportamento por ele definida, especialmente com quem se atreve a contrariar o dogma do perigo das estrelas. No entanto, com os sistemas em falha progressiva, os habitantes da nave têm de ser capazes de sair da nave e colonizar um planeta.

Por outro lado, temos os terrestres prospectores, surpreendidos pelo artefacto e dispostos a investigá-lo, reclamando-o como seu. Uma pretensão travada por uma nave Akoniana. Os rivais dos terrestres também reclamam a nave lemuriana, e resta a Rhodan mediar entre representantes de civilizações antagonista para exploração conjunta da nave. Ao iniciar a descoberta dos seus mistérios, uma frota de combate akoniana toma conta da situação, e Rhodan vê-se obrigado a recuar. Sendo o primeiro de uma série de cinco livros, o recuo é apenas uma peripécia ao longo dos episódios.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Comics


Secret Empire #02: Confesso que não percebo muito bem a polémica neste evento Marvel que coloca o Capitão América como um ditador fascista ao serviço da Hydra. Claro que subverte toda a tradição do personagem, mas é isso que o torna interessante. Não se esqueçam que estamos no mundo dos comics. No final tudo acabará bem. Quanto à iconografia do herói, sublinhe-se que o ideário do Capitão América pode ser visto noutras partes do mundo como um símbolo altamente imperialista. Se calhar é isto que choca os leitores americanos, o perceber que os seus patriotismos não são globais.


Batman #23: Tom King continua a sua temporada excepcional ao leme do título icónico da DC. Desta vez oferece-nos duas raridades: um Batman bem humorado, e um tratamento soberbo a Swamp Thing.

domingo, 21 de maio de 2017

Sustos às Sextas: Sugestões de Leitura



O João Castanheira, da organização desta tertúlia literária que decorre no palácio dos Aciprestes, convidou-me a vir à última sessão da terceira temporada dos Sustos às Sextas para partilhar sugestões de leitura sobre ficção científica e terror, o tema de uma sessão que contou com um painel de gigantes com  o João Barreiros, Cristina Alves e Luís Filipe Silva.

Se aceitei com entusiasmo, até porque ficaria finalmente com uma das famosas canecas da tertúlia, ao aproximar-se a data da intervenção a vontade de a fazer era muito pouca. Não por descrédito à tertúlia. Digamos que desde o momento em que recebi o desafio e o dia de o cumprir, um projeto muito especial da minha vida profissional acelerou enormemente e o tempo livre reduziu-se muito. Os workshops e demonstrações sucedem-se, o entusiasmo é muito, mas os dias passados a falar sobre impressão 3D, de volta da robótica, em eventos e demonstrações pesam nos ossos. Isso, e os quilómetros que tenho feito. Desta temporada dos Sustos, só compareci a esta sessão. Uma vergonha, bem sei, mas tenho chegado às sextas-feiras extenuado e a precisar das horas de sono para no dia seguinte me meter à estrada e ir para outros desafios.

É um mal que afeta outras vertentes. De tal forma que quando cheguei aos Aciprestes, a mulher do João Barreiros comentou que estava a assistir ao regresso do desaparecido. Pois, certeiro com muita graça e razão... e foi um regresso fugaz. Tenho falhado os Sustos e os jantares dos Devoradores de Livros. Confesso que me faz falta o mergulho nas culturas para equilibrar as tecnologias. Aliás, mais do que equilibrar, ganhar inspiração, porque (se me permitirem o convencimento), o que me distingue nas abordagens à tecnologia é a minha postura de incentivo ao seu uso como ferramenta criativa. Despedi-me deles com um até ao Sci-Fi LX. Aí não conto faltar.

As páginas de um livro de terror são umas das minhas recordações literárias de infância. Lembro-me de os meus pais me terem oferecido um monte de livros, teria para aí seis anos (fui um leitor precoce, ensinado a ler em casa por uma antiga preceptora e o método João de Deus). Desse monte, só me recordo de um, pelos arrepios e pesadelos que provocou. Recordo-me de o abrir e ficar assuatadissimo pelas imagens de um castelo sombrio, povoado por espectros que atazanavam o pato Donald e os seus amigos. Era, curiosamente, um livro da Disney... não revista, um livro ilustrado sobre a Casa Assombrada.

Sendo mais inclinado para os voos especulativos da FC, não há muito que vos possa oferecer no que toca ao horror na literatura. Gosto de um bom arrepio literário, mas não é esse o foco das minhas leituras. Aliás, nestes tempos sinto que estou a viver profundamente mergulhado na science fiction condition. Nos dias que correm, o verdadeiro horror para mim é ter uma daquelas peças de oito horas de impressão a falhar ao fim de sete horas e meia porque o filamento se enrolou, ou limpar um extrusor e tocar no nozzle esquecendo-me que aquela jiga-joga está aquecida a 200º. Acreditem que são coisas que provocam gritos lancinantes do mais profundo e doloroso horror.

Suspeito que depois das sessões anteriores e sugestões dos seus convidados, esta minha lista peque pela banalidade, pelo esperado. Sem querer fingir ser um expert em literatura de terror (e se o tentasse, o António Monteiro logo me desmascarava), deixo aqui uma lista de sugestões, que destaco não pela sua importância literária, qualidade intrínseca, mas por terem sido livros que me tocaram, arrepiaram, ou deixaram a sonhar com paisagens tenebrosas. Alguns, insuspeitos, surpreenderam-me pela sua ligação com a ciência e tecnologia.



Começo com o primeiro livro de terror que me recordo de ter devorado, Dracula de Bram Stoker. De tudo o que se pode dizer sobre essa obra fundamental no horror, diria que o aspecto que me surpreendeu foi a sua modernidade. Já imaginaram que este livro, à época em que foi publicado, poderia ser uma verdadeira obra de ficção científica sobre o futuro próximo? Suspeito que lido pelos olhos de um leitor do século XIX, Dracula pareceria quase futurismo próximo. O terror medieval do vampiro é combatido com as armas da ciência e tecnologia da época. As velhas superstições são complementadas por perseguições de comboio, ou personagens que registam as suas narrativas utilizando gravadores de som.



Se falamos de futurismo e terror, Frankenstein de Mary Shelley é o livro incontornável. Aliás, a sua associação com a literatura de terror é algo injusta, uma vez que no livro o monstro não é a criatura, é o seu criador, e a criação é feita com as ferramentas da lógica, química e electricidade, não com encantamentos cerimoniais do além. Diria que este romance é o mito original que, nesta era dependente da tecnologia, nos define.


Não se se recordam que houve um tempo antes da internet? Em que não havia Amazons, e-books e quando marcávamos encontros tínhamos mesmo que estar nos locais à hora certa, porque não havia telemóveis para comunicar. Soube de Lovecraft nesses tempos, através de artigos em zines e revistas, mas demorou até ter conseguido lê-lo. Os Demónios de Randolph Carter, na edição tenebrosas das Edições B, foi o meu primeiro mergulho na obra do bardo de Providence. Impossível não ficar apaixonado pelo misto feérico de exótico e orientalismo das suas visões do mundo dos sonhos que Carter atravessa.


At the Mountains of Madness e as geometrias não-euclidianas da cidade sob os gelos cimentaram o gosto, os contos fizeram o resto. Mesmo sabendo que pelos nossos padrões a misogenia e racismo de Lovecraft são complicados de aceitar.


Imajica, de Clive Barker, seduziu-me precisamente por esse aspecto de fantástico grotesco. Já não recordo o enredo e as aventuras, e honestamente não me sinto particularmente disposto a a revisitar o livro. O que ficou foi a visão sedutora, orientalista, exótica, das arquitecturas de mundos de fantasia invocados pelo autor. Books of Blood e Cabal à parte, a obra de Barker sempre me pareceu ser bastante banal, mais a apostar na escatologia sexualizada e a repetir-se nos esquemas narrativos.

E quanto ao terror literário em português?


Talvez a melhor descoberta tardia que fiz este ano, O Físico Prodigioso de Jorge de Sena seduz pela forma mágica como entretece o imaginário medieval, antigas lendas e um fantástico carregado de erotismo.

 
Quanto a Lovesenda de António de Macedo, podia salientar qualquer outro livro deste autor e cineasta, mas olho para este por ser o mais recente e potencialmente dos menos lidos (baixa tiragem, editora independente). Mistura uma capacidade fortíssima de nos levar ao ambiente do passado histórico com o fantástico místico e gnóstico que é a marca de Macedo.
 

Os Ossos do Arco Íris de David Soares: Foi o meu primeiro choque com o autor, e a descoberta que existia uma corrente cultural portuguesa contemporânea nas culturas de género. Poderia salientar qualquer outro livro deste autor, aponto este por ter sido indicador de algo maior. Um pouco isolado do contexto da FC e Fantástico nacional, suspeitava que alguns autores existiam, suspeita alimentada por números perdidos da Simetria que encontrava esquecidos em livrarias, ou os nomes portugueses nas capas azuis da lendária coleção da Caminho.

 
Museum of Horror de Junji Ito foi a obra que me deu a conhecer o mangá de terror japonês, com uma personagem arrepiante, Tomie. Fantasma de rapariga assassinada por um namorado obcecado, compraz-se fascinar homens e mulheres com a sua atração sobrenatural, levando-os à loucura homicida ou à degradação violenta do body horror. Sem redenção. Nesta série, o que o espírito procura não é o alívio da sua dor, mas a propagação abjecta da sua morbidez. É o aspeto que mais seduz nesta obra, o contraponto à nossa tradição que dita que o espírito malévolo apenas procura a o descanso final da redenção.



Os Vampiros de  Filipe Melo e Juan Cavia. É impossível não falar deste trio de autor e ilustradores, pelo impacto que tiveram no panorama da BD portuguesa com a trilogia Dog Mendonça e Pizzaboy, e, no caso específico de Filipe Melo, pela sua importância como ícone da cultura g33k. Neste seu livro mais recente, misturam história portuguesa contemporânea, hordas vampíricas e a claustrofóbica mentalidade de cerco de personagens cercados numa casa. O resultado é um livro eficaz, que tanto seduz os amantes do fantástico como os defensores de culturas mais "sérias".
 

Não consigo deixar de falar de uma das minhas obsessões pessoais. Dylan Dog é um dos meus fascínios, personagem de fumetti que investiga casos sobrenaturais. Não é nenhum Sherlock ou caçador de monstros, vive ao sabor dos casos com que se cruza e é pouco interventivo, muitas vezes um assistente nas suas aventuras. Tiziano Sclavi destila a história do terror literário e cinematográfico neste personagem melancólico, tocador de clarinete e construtor de um modelo de galeão eternamente inacabado, sempre a apaixonar-se pelas mulheres com que se cruza. Attraverso lo Specchio é um bom exemplo das suas aventuras, num cruzamento de Poe com horror clássico, Lewis Carroll e slasher movies.

 
Afastado da série, a personagem está entregue a outros argumentistas, dos quais se destaca Roberto Recchioni. Não tão texturado ou referencial como Sclavi, mas compreende bem o personagem. Mater Morbi é das suas melhores histórias, quase fetichista na iconografia.


Falar de Dylan Dog obriga a falar de Dellamorte Dellamore, romance em fragmentos de Sclavi, um dos pontos de partida do que se viria a tornar o personagem de fumetti. Francesco Dellamorte é o coveiro do cemitério da cidade esquecida de Buffalora, na Itália profunda. Como coveiro, a sua principal tarefa é manter os mortos enterrados, num cemitério onde poucos dias após o enterro os defuntos regressam a vida como zombies. O filme de Michele Soavi que passou, recentemente, no Nimas, faz justiça à bizarria desta obra, mas o livro vai muito mais longe no seu surrealismo tétrico.



Para finalizar, sugestões de leitura contemporâneas. Providence, um longo e profundo mergulho de Alan Moore no Mythos lovecraftiano, entretecendo fios condutores entre a sua obra, as dos seus seguidores (Derleth, Bloch e Chambers são referênciados) e influências culturais, com um final apropriado de apocalipse surreal que nos mostra que, talvez, as ficções que nos deleitam são m verdadeiro mundo em que habitamos.



Harrow County, a ser editado em português pela G.Floy, onde a ruralidade do Sul profundo nos anos 20 como palco para histórias de terror cheias de mitos tradicionais. Cullen Bunn aborda este título um pouco como um Faulkner do horror.

 Afterlife with Archie: e que tal pegar num comic de piadas adolescentes e transformá-lo num épico de terror com zombies e criaturas lovecraftianas? Uma proposta inesperada e divertida, onde Roberto Aguirre-Sacasa, acompanhado por Francesco Francavilla na ilustração, destrói a premissa dos comics da Archie - a vida de eternos adolescentes numa small town americana, com extremo prejuízo.



Para finalizar, as iconografias clássicas da Creepy, notável pelo formato influente de história curta com final macabro e irónico, mas especialmente como caldo onde germinaram alguns dos mais influentes artistas dos comics, Alex Toth, Bernie Wrightson, Steve Ditko, entre muitos outros, cujos grafismos inconfundíveis marcaram de forma indelével a estética dos comics de terror.

sábado, 20 de maio de 2017

Fora do mapa





Porquê ir na auto-estrada, se as outras estradas nos oferecem tantos encantos? A celeridade não é resposta para tudo. Entre Golegã e Salvaterra de Magos, escolhendo os caminhos mais ineficazes para regressar a Lisboa.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Aether & Empire



Mike Horan (2016). Aether & Empire, Volume 1: Eternal Glory. Blue Juice Comics.

Uma divertida aventura steampunk, que de galeões nos céus mediterrânicos nos leva a Marte, e a cyborgs steampunk que mesclam tecnologia alienígena com carne humana. O jovem comandante de um navio aéreo recebe como missão comandar uma nave que se dirige ao planeta vermelho, para averiguar o que terá acontecido a uma expedição anterior. Divertido e bem ilustrado, apesar de simplista na sua premissa, e de se sentir problemas de ritmo narrativo.

terça-feira, 16 de maio de 2017

APOSIMZ






Tsutomo Nihei (2017). APOSIMZ. Kodansha Comics.

Um registo mais leve do que o que conhecia deste mangaká nos fascinante Blame! e Biomega. Aposimz leva-nos a um asteróide dividido, onde sobreviventes de uma clivagem social que os isolou da civilização no seu interior sobrevivem nas ruínas exteriores, expostos ao gelo e à atmosfera rarefeita. Mais do que sobreviver, organizam-se em clãs que lutam entre si pela supremacia à superfície, contando com uma simbiose entre robots e humanos para criar combatentes com armaduras biomecânicas. O tema clássico de Nihei - ruínas urbanas infindáveis de alta tecnologia decaída, corroída e desolada, leva aqui com uma dose do clássico mesclar de humano e robot, com retoques de FC juvenil. Os personagens deste Aposimz são jovens, claramente uma aposta de mercado por parte do autor. Um registo leve, dentro dos padrões do género, que vale essencialmente pelo traço de Nihei e a sua visão arquitectónica tão bem definida.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Comics


Harrow County #23: O weird southern gothic de Cullen Bunn e Tyler Crook não dá sinais de fraquejar. O horror traquilo, mas ambiental do que dependente de choques emocionais fugazes, está a revelar-se eficaz. Por cá, já se pode ler os primeiros volumes da série em português, com edição da G.floy.


War Stories #23: Garth Ennis regressa a esta série intermitente, desta vez levando-nos à guerra no deserto, com a história dos pilotos de uma esquadrilha britânica que travam amizade com os seus congéneres italianos, tornados prisioneiros quando a RAF toma conta de uma base aérea avançada após a retirada das forças do Eixo. A fórmula de Ennis é muito eficaz nesta série, sem heroísmos, sem glorificação da violência ou do militarismo, apenas a história lida através de pequenas histórias pessoais, parte de um panorama muito mais vasto.

sábado, 13 de maio de 2017

How I Roar





No entanto, há recantos na Lourinhã sem vestígios de dinossauros. E Setúbal, em intervalos de chuva.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Judge Dredd: The Restricted Files 02



John Wagner, et al (2010). Judge Dredd: The Restricted Files 02. Londres: Rebellion/2000AD.

É nas histórias curtas, dentro dos estritos limites da 2000AD, que Dredd se revela mais interessante. A glorificação da violência de estado, o óbvio fascismo da personagem, a ironia distópica de um futuro pós-apocalíptico onde a humanidade se congrega em cidades futuristas, ao mesmo tempo arquitecturas de abundância pós escassez e fossos de crime, onde populações sem ocupação dependem de cultura popular bizarra para passar os dias. Se soa a crítica à sociedade contemporânea, é porque o é, por muito que Dredd se dilua como action hero nos comics e em cinema. O brilhantismo da personagem é atingir o ponto certo de equilíbrio entre crítica social e divertimento pop.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Strange Embrace



David Hine (2003). Strange Embrace. Active Images.

Entre o gótico e o grotesco, não há bondade nesta história de terror onde se cruzam um sociopata com capacidades telepáticas e o velho dono de uma loja de antiguidades, sexualmente reprimido, incapaz de ter relações normais com familiares e mulher, e que vive fascinando por estatuária africana. Uma família tortuosa, um suicídio, e uma imagem mental que o telepata quer à força arrancar para completar o puzzle formam esta história inquietante. O estilo gráfico é tenebroso e fortemente reminiscente do expressionismo alemão do século XX, cheio de contrastes e linhas cortantes.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Comics


Hellboy: Into the Silent Sea: Uma aventura curta deste personagem, com Mignola a teimar em não fazer novas continuidades mas mergulhando no seu passado editorial para se inspirar e criar novas aventuras. Aqui, Hellboy depara-se com brumas e assombrações amaldiçoadas no meio do mar.


Shipwreck #04: Só Warren Ellis para transformar especulações de tecnologia exótica em programas institucionais. Cruze-se isso com universos paralelos e futurismo catastrófico e temos os ingredientes desta série.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Flash Gordon: Zeitgeist



Eric Trautmann, Alex Ross (2013). Flash Gordon: Zeitgeist. Runnemede: Dynamite.

Uma curiosa revisão das histórias de Flash Gordon, cuja estética mescla o exotismo elegante de Alex Raimond, traços de dieselpunk e a extravagância anos oitenta do filme. Aqui, o imperador Ming diverte-se com a Terra, fornecendo armas a um certo ditador alemão para se entreter com a conquista do planeta. Apenas Zarkov, o cientista, suspeita que algo mais estará por detrás de estranhos eventos atmosféricos, e coopta Flash Gordon e Dale Arden para, num foguetão, investigar a sugestão de bizarros universos ligados ao nosso por forças maléficas. O resto é história, bem conhecida e estabelecida na cultura pop. Trautmann não se desvia muito das narrativas clássicas. O que dá mérito a esta série é a direcção artísticas de Alex Ross, que lhe confere um visual clássico e deslumbrante, que homenageia a elegância e exotismo do melhor de Raimond.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Cosmos Discovery









Talvez esteja a ser forreta, mas pelo preço do bilhete, esperava mais. Não que a exposição Cosmos Discovery seja má. Está bem montada, e leva os visitantes num périplo pela história da Era Espacial, através de um percurso entre artefactos e painéis informativos. Começa logo com Von Braun, deixando de parte Tsiokolvsky e Goddard, o que não se percebe, mas de resto dá um bom panorama dos principais marcos e missões de exploração espacial. Peca é na parte dos artefactos que promete, nisso sendo pouco mais do que uma coleção de modelos à escala e reconstituições. Tem, de facto, bastantes artefactos, mas pequenos. Muitos fatos espaciais, outros artefactos diversos. Tirando os rovers e os lunokhods, tudo o resto é essencialmente balsa. Permite dar a noção, mas defrauda um pouco quem esperaria encontrar numa exposição destas cápsulas ou motores de foguetão. Também inexplicável a inexistência de qualquer livro ou sequer catálogo da exposição na loj.