quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Wunderwaffen: La Foudre de Thor



Richard Nolane, Maza (2015). Wunderwaffen #08: La Foudre de Thor. Toulon: Soleil.

O elemento mais interessante desta série, o imaginar no espaço da banda desenhada dos projectos de armas de alta tecnologia criados pelos engenheiros nazis no final da guerra, perde-se bastante nesta viragem da história para campos mais alternativos. Bases nazis na antártida e naves alienígenas enterradas sob o gelo, com tripulantes em hibernação, são o mote deste episódio de Wunderwaffen, que não está à altura desta interessante série. Se em termos narrativos explora outras mitografias da iconografia nazi, visualmente o trabalho de um ilustrador que é excepcional nos mecanismos sofre quando focado apenas em personagens.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Southern Cross


Becky Noonan, Andy Belanger, Lee Loughridge (2016). Southern Cross Vol. 1. Berkeley: Image Comics.

Uma surpresa intrigante, num mundo ficcional de ficção científica fortemente reminiscente de Alien. Uma jovem viaja até Titã para investigar a morte da irmã, funcionária de uma mina de metano nos oceanos da lua. A viajem é feita na Southern Cross, nave que faz o percurso regular entre Terra e Titã. Durante a viajem, descobre que a morte da irmã é a chave de muitos mistérios que se sobrepõem, entre grupos criminosos, estranhos artefactos alienígenas e um motor gravitacional que parece invocar criaturas do além e se revela capaz de abrir um portal para outras dimensões.

Misto equilibrado de FC pura com terror, este livro distingue-se pela claustrofobia da sua ilustração. Este não é o futuro luminoso das utopias, antes um mundo degradado de operariado sem esperança. A nave em si parece ter sido montada a partir de um petroleiro, adaptado dos mares para as vias espaciais. É toda uma estética de ferrugem e metal, de espaços confinados povoados por personagens com histórias violentas.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Comics


Monsters Unleashed #03: O mega-evento crossover da Marvel, assinado por Cullen Bunn, é sem dúvida divertido. A Terra ameaçada por monstros gigantes, capazes de derrotar os mais poderosos heróis. Demolição urbana em larga escala por criaturas horrendas, como não adorar? Se vos soa familiar, é porque o é. Monsters Unleashed é um óbvio mashup de Pacific Rim (e todos os filmes de kaijus que o antecederam) e Tokyo Storm Warning, a aventura de Warren Ellis nestas andanças, ela própria uma derivação assumida do mangá. Tal como em Pacific Rim, os monstros seguem a estética orgânica de del Toro. E tal como no comic de Ellis, são despoletadas pela imaginação de um jovem adolescente amante do desenho, que tem a capacidade de dar vida às criaturas que imagina no papel. Ok, hábitos derivativos são o expectável nos comics, esperemos que quer a Marvel quer os leitores sejam capazes de dar crédito às bases deste divertido crossover.


The Wild Storm #01: Warren Ellis de regresso à DC, com uma nova série de 24 números de Wildstorm. Uma daquelas propriedades intelectuais que a DC adquiriu mas nunca soube muito bem o que fazer com ela, com algumas tentativas depressa esquecidas de enquadramento na continuidade habitual da DC. O mesmo se passou com The Authority, cuja última iteração fez parte da DC'52. Para este regresso, Ellis foca-se no essencial, nas conspirações, na tecnologia de ponta em evolução selvática e nas forças que modelam o mundo por detrás das cortinas da normalidade.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Habitat



Simon Roy (2016). Habitat. Berkeley: Image Comics.

Uma interessante variação sobre o tema dos habitats espaciais e naves geracionais, a recordar um pouco o que Bruce Sterling fez em Taklamakan ou Kim Stanley Robinson em Aurora. Habitat é uma prototípica estação espacial tipo O'Neill, cujos habitantes, agora na quarta geração, estão isolados do resto da humanidade e decaíram civilizacionalmente num ecossistema em colapso. Tempos antes, um acidente provocou uma quebra no casco e os protocolos de segurança isolaram a estação. Gerações depois, as equipes de trabalho degeneraram em tribos, com os sanguinários herdeiros da segurança em combate contínuo contra engenheiros. A salvação virá, graças a um cadete da segurança do habitat que descobre um chip contendo planos proibidos para as impressoras 3D da estação. Numa sociedade decaída a níveis pré-históricos, a possibilidade de deter uma arma laser vai colocar em movimento um processo que, felizmente, se saldará pelo regresso dos habitantes da estação à humanidade.

História interessante, mas o que torna este comic intrigante são as visões do habitat em si. Simon Roy pega nas iconografias utópicas dos planos dos anos 70 e 80 e fá-las decair em selvas. As ecologias colapsadas e arquitecturas futuristas envoltas em lianas são as imagens mais marcantes deste livro.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Captain Marvel by Jim Starlin: The Complete Collection




Jim Starlin (2016).  Captain Marvel by Jim Starlin: The Complete Collection. Nova Iorque: Marvel Comics.

A obra de Jim Starlin sempre se caracterizou pela ponte que estabeleceu entre dois géneros, o comic de super-heróis e a FC space opera. Captain Marvel foi talvez a série marcante que projectou esta mistura inesperada, que o argumentista e ilustrador viria a explorar, mais livre de constrangimentos, em Dreadstar, Warlock, épocas à frente de Silver Surfer e mais recentemente na temporada inicial de Stormwatch na DC Comics.

Este volume reúne as histórias que, colectivamente, formam a saga de Marvel no combate a Thanos, o mais inquestionável vilão do universo Marvel. Distinguem-se pela capacidade de Starlin em ultrapassar os limites conceptuais dos comics. Com ele, os personagens são mais do que criaturas musculadas em constantes combates lineares. Culturas alienígenas, aventuras interplanetárias, frotas espaciais em combate, e especialmente um sentimento quase psicadélico do cosmos, de espanto pela sua vastidão e maravilhas que poderá encerrar. Mar-Vell, militar da espécie alienigena dos Kree, apaixona-se pela Terra e utiliza os seus poderes para a defender de ameaças cósmicas, das quais Thanos é a mais complexa. No seu lado mais simplista, estas são histórias elementares onde os heróis combatem contra as acções do vilão, com a linearidade dual que se espera do género, mas a sensação abrangente de algo maior, de sentimento cósmico, é constantemente introduzida por Starlin nas linhas narrativas. A saga encerra em nota triste, com a morte do personagem, evento à época inédito na linha editorial dos comics e explorado pela editora na sua primeira novela gráfica. Starlin mostra a morte de um super-herói fragilizado pelo cancro. Morte nos comics raramente é totalmente terminal, mas sublinhe-se que se o nome deste personagem tem sido utilizado por outros, o capitão Marvel original nunca foi ressuscitado em enredos convolutos que reescrevem décadas de histórias admiradas pelos fãs.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Comics


Green Valley #05: Não é dos melhores comics actualmente editados, mas tem uma premissa divertida. À partida, Green Valley parecia ser mais uma história sobre heróis da idade média e seus feitos, até começarem a aparecer dinossauros e um viajante do tempo com ética duvidosa.


John Carter The End #01: intrigante é ver Brian Wood a pegar numa franchise tão batida como John Carter. Pelo estilo, quer visual quer narrativo, percebe-se que o tratamento que o argumentista vai dar à personagem vai ficar muito distante do simplismo que sempre a caracterizou. Certamente que não é a visão limpa da Disney, ou o estilismo sex shop das séries da Dynamte sobre Dejah Thoris. Carter e Thoris estão velhos, e regressam a um Marte irreconhecível para libertar o povo marciano do jugo opressor do seu próprio filho.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Lovesenda...


...ou o Enigma das Oito Portas de Cristal foi livro que estava difícil de chegar aos leitores. António de Macedo viu o seu manuscrito recusado pelas editoras, e ia partilhando nas redes sociais pequenos fragmentos de um romance que tudo apontava estar condenado a ficar inédito. Não resisto a resmungar sobre o estado do bom gosto editorial quando uma figura marcante da cultura portuguesa vê as suas obras recusadas, e as editoras despejam nos escaparates atentados ecológicos e neuronais ao quilo dos rodrigues dos santos ou chagas freitas.

Felizmente, a Editorial Divergência apostou no livro e prestou um verdadeiro serviço público à cultura portuguesa, editando o mais recente livro do cineasta mal querido do establishment cultural nacional. Graças a esta editora, poderemos em breve ler mais um romance original do fantástico poético de Macedo.

O livro será lançado no próximo dia 18 de fevereiro na Biblioteca de S. Lázaro, em Lisboa, local especialmente apropriado se nos recordarmos que a sala de leitura desta biblioteca foi um dos cenários do filme Abismos da Meia Noite, do realizador. A essa hora espero estar a soldar componentes electrónicos com alunos do meu clube robótica no RobôOeste, em Torres Vedras, e por isso não vou poder estar presente neste evento. Bem queria, é sempre fascinante estar na presença de Macedo e ouvir as suas histórias, que mais do que estórias de uma vida, são retratos de um país.

(A soldar... mas com luvas de amianto, que as minhas colegas de aventuras na rebeldia digital sabem o medo que tenho de ferros e solda. Dedos queimados não conseguem pegar em livros...)

Talvez... posso sonhar com uma video-conferência ou difusão da apresentação? Uma sessão de skype? Há momentos em que gostaria mesmo de ser capaz de me desdobrar, e este é um deles.

Quanto ao livro, ainda não o li, mas suspeito que terá aquele delicioso toque incongruente de humor, sabedoria gnóstica e fantástico luxuriante que é a marca da ficção de António de Macedo. Aproveitei a pré-venda no site da Divergência, e aguardo ansiosamente pelo carteiro, já que não o posso levantar na sessão de apresentação. Quando chegar, tenho de decretar uns dias de por favor só me interrompam em caso de urgência para me dedicar a saborear o livro. As impressoras 3D também precisam de descanso, e a obra de Macedo é a melhor causa para uma pausa nos afazeres.

Aguardo. E do que conheço da obra ímpar deste autor, sei que vale a pena a espera.

Dylan Dog: La Lunga Notte; Al Servizio Del Caos.



Paola Barbato, Luigi Piccatto (2006). Dylan Dog Gigante #15: La Lunga Notte. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Dylan quase se transforma num vampiro, nesta estranha aventura onde irá ficar a conhecer os representantes das criaturas das trevas, inimigos entre sim mas unidos num pacto milenar de não agressão para sobreviver aos seus maiores adversários, os humanos. Pacto esse que é colocado em risco por uma conspiração que assassina o líder das criaturas das trevas e utiliza o grupo de representantes dos vampiros como falsos suspeitos. Uma noite em que uma avaria do eterno carocha de Dylan Dog o mergulha numa fuga pela vida nas ruas de Londres, acossado por fantasmas, demónios, necromantes, bruxas, mutantes, lobisomens e zombies, enquanto nas suas veias começa a correr sangue de vampiro. Pelo menos, reflecte, pelo que vê por ali reunido, não lhe irá faltar trabalho nos próximos tempos, como detective do oculto e ocasional eliminador de criaturas da noite.



Roberto Recchioni, Daniele Bigliardo (2015). Dylan Dog #341: Al Servizio Del Caos. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Dylan Dog enfrenta um dos seus piores pesadelos nesta aventura: os adereços da modernidade. Famoso por ser um tipo à antiga, vê-se aqui contratado por um poderoso magnata da tecnologia para investigar o estranho caso dos acessos de violência extrema ligados ao seu mais novo produto, um telemóvel de luxo. Cruza-se com a elite do um percentismo digital, descobrindo que o mistério reside num designer de excepção que se inspira na magia para dar carácter às suas criações. Algo que nesta correu mal, provocando ondas de inveja assassina a todos os que se cruzam com utilizadores do telemóvel. A história tem uma componente banal de crítica à percepção do impacto cultural das tecnologias de comunicação, uma ilustração soberba e muitas piscadelas de olho a figuras da cultura popular. Há que adorar Alan Moore a emprestar o rosto a um geek que vive isolado numa mansão que replica a de um filme de James Bond, rodeado de adereços de cultura popular, e que pratica magia para auxiliar o seu trabalho de criação e design de telemóveis avançados.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

One Week in the Library


Maxwell Prince, John Amor, Kathryn Layno (2016). One Week in the Library. Berkeley: Image Comics.

No que toca a bibliotecários ficcionais de banda desenhada, devo confessar a minha predilecção por Lucien, o guardador da biblioteca de livros sonhados, intuídos, imaginados mas nunca escritos, de The Sandman. Este não lhe fica muito atrás, no entanto.

Um bibliotecário sem memória do mundo exterior, se é que existe tal coisa como mundo exterior. Uma biblioteca cuja estrutura organizativa é insondável e cujos livros se manifestam, impositivos. Onde, por vezes, as personagens tentam a fuga das histórias a que se sentem aprisionadas. Uma pequena biblioteca de Babel do fantástico, mantida por um personagem que, no final, se descobre ser uma projecção dos anseios e neuroses de um argumentista que prefere quebrar a parede entre o real e o imaginário do que terminar a história. Uma simpática banda desenhada sobre o amor ao mundo fantástico dos livros, com um traço a condizer.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Comics


Batman #16: Heh. Tom King aligeira um bocadinho o tom sombrio e pesado do seu Batman com um toque de humor. O resto da sequência, com Bruce Wayne a comer um hamburguer de faca e garfo, deixou as interwebs em estado de choque.

Karnak #06: Warren Ellis encerra esta atribulada série sobre um personagem incómodo. A despicable character, nas suas próprias palavras, que incomodou o argumentista. Mas só Ellis conseguiria tornar este anti-herói, capaz de encontrar a falha fulcral em tudo, credível.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Formar


Pôr do sol em dia cinzento na sala de formação da escola secundária de Mafra.


Pausa no Entroncamento.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Doctor Who: The Whoniverse




Justin Richards, George Mann (2016). Doctor Who: The Whoniverse: The Untold History of Space and Time. Londres: Harper Design.

A história do universo, revista pelo mythos whoviano. Essencialmente um arranjo cronológico de sinopses dos episódios da série, alinhados como uma história grandiosa. Intrigante pela capacidade enciclopédica dos autores, mas pouco mais que isso. Não deixa de ser bom rever cybermen e daleks, bem como as tropelias das várias encarnações do Doctor ao longo dos espaços e tempos. Profusamente ilustrado com concept art saída da BBC.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Space Race: The Battle to Rule the Heavens



Deborah Cadbury (2006). Space Race: The Battle to Rule the Heavens. Londres: Harper Perennial.

É história, mas lê-se como um romance. A história da era espacial é aqui contada através de duas figuras de charneira, Von Braun e Korolev, focando-se nos seus esforços para abrir o espaço enquanto nova fronteira. Por detrás estão as potentes máquinas políticas e militares da guerra fria, que viram na corrida ao espaço uma forma de desenvolver poderio militar e prestígio político. Uma história que começa nos escombros da Alemanha no final da II Guerra, passa pelo desenvolvimento dos primeiros foguetões capazes de ultrapassar os limites terrestres e das primeiras missões tripuladas, e termina com Neil Armstrong a deixar a primeira pegada humana na Lua.

Necessariamente superficial, o livro não deixa de tocar no passado controverso de Von Braun, na violência da vida de Korolev num sistema opressivo, e as peculiaridades da Guerra Fria. Percebe-se o longo e tortuoso caminho, feito de mais falhanços do que sucessos, até a astronáutica se ter tornado rotineira (mas não cem por cento fiável, como somos recordados sempre que um lançador explode ou falha a órbita). Ler as suas lutas e desventuras é perceber o quanto o sonho de ir ao espaço é incompreendido e tido como inútil, apesar de todo o progresso científico e económico que proporciona. Uma sensação que se mantém hoje, onde os orçamentos para a exploração espacial são muito limitados, e a percepção generalista pende menos para o fascínio da descoberta e mais para a ideia de que é inútil torrar dinheiro em foguetões enquanto na Terra persistem tantos problemas. Opiniões geralmente escritas e partilhadas utilizando dispositivos computacionais dependentes da precisão trazida pelo GPS, dando um pequeno exemplo da incongruência.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

The Infinity Entity



Jim Starlin, Alan Davis, Ron Lim (2016). The Infinity Entity. Nova Iorque: Marvel

Por si só, Thanos é o típico super-vilão megalómano de comics, que existe apenas para que as suas grandiosas maquinações sejam travadas pelos super-heróis em gloriosas batalhas. Emparelhado com Warlock, no entanto, torna-se algo mais, um resquício do psicadelismo cósmico em voga nos anos 70 do século XX. Jim Starlin é o culpado usual desta vertente, com as suas histórias onde os dois personagens, inimigos com demasiado em comum, duas faces da mesma força cósmica, se cruzam em dilemas verdadeiramente titânicos, para lá da mortalidade, dos limites humanos, em vastas e inimagináveis dimensões do cosmos. Nestas histórias, o foco está num Thanos que, derrotado mais uma vez, é visitado por um avatar seu do futuro que, detentor das jóias do infinito, lhe mostra que o seu destino não terminou com a derrota. Em seguida entramos em dimensões profundamente cósmicas, com um Warlock amnésico a viajar ao longo de todos os tempos, descobrindo que encerra em si todo um universo e avisado peças entidades cósmicas do universo Marvel que as suas acções irão determinar o fim da realidade, enquanto permanece inconsciente, dominado pelo inefável Mephisto, que decidiu usar a ciência para conquistar a nossa realidade. É também uma boa oportunidade de desempoeirar os mais bizarros personagens da Marvel, entre Galactus, o Tribunal Vivo ou a Eternidade.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Comics


Doom Patrol #04: Com Gerard Way, Doom Patrol continua deliciosamente weird. Diga-se que dos títulos DC Young Animal, este tem sido aquele que se mantém à altura das expectativas criadas.


Uber: Invasion #02: Kieron Gillen traduz para o seu universo ficcional a iconografia de Hiroxima depois da bomba atómica. Neste novo arco da série que mistura super-heróis com II Guerra, Gillen leva os seus seres superiores à américa, com resultados devastadores. A vantagem de publicar na Avatar Press é a de o argumentista não ter de se refrear para evitar traumas aos leitores, e isso nota-se bem nesta série.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Edgar Pêra - Uma Retrospectiva







Registos da exposição Serralves em Torres Vedras: Edgar Pêra - Uma Retrospectiva, patente nos Paços - Galeria Municipal de Torres Vedras. Pequena e concisa exposição que nos dá um bom panorama da obra de vanguarda deste cineasta, video-artista e autor, a partir de excertos de filmes, curtas experimentais, material gráfico e apontamentos. Estéticas radicais e incómodas pela forma como recusam compromissos com conceitos tradicionais de beleza, atrevendo-se a desbravar novas fronteiras possibilitadas pela manipulação extrema dos materiais técnicos. Num toque pessoal, foi interessante rever algumas das crónicas que nos anos 90 Pêra escreveu para o jornal O Independente, que me despertaram a atenção quer para diferentes estéticas quer para o gosto pelos comics. A exposição terminará a quatro de março.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Erínias


As máscaras da peça As Fúrias ou de Como o Pai Venceu a Mãe, uma fortíssima versão de Fernanda Lapa a partir de As Eumenides de Ésquilo, em cena no espaço Escola de Mulheres até 31 de janeiro. Recomenda-se, com o arrepio que textos de múltiplos sentidos com mais de dois mil anos nos fazem sentir ao mostrar-se tão actuais. E as erínias são particularmente arrepiantes.




Manhã de inverno em S. Julião.


Despojos de automobilismos passados, à beira da estrada nacional 8 entre Alcainça e Malveira.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O Grande Baro e outras histórias



Virgílio Piñera (2016). O Grande Baro e outras histórias. Guimarães: Livraria Snob.

Um bom início para a prometedora coleção literária Pedante, que nesta sua primeira edição nos traz a obra de um escritor cubano maldito. Os contos de O Grande Baro e outras histórias caracterizam-se por um delicioso surrealismo macabro, com fortes doses de humor muito negro e uma iconografia que por vezes roça o diabólico. Histórias curtas, absurdistas, que exploram as pequenas estranhezas da vida levando-as por caminhos inesperados. O absurdo surreal é complementado por um forte sentido de carnalidade, nestes contos de crueldade subtil.

Recordo ter lido um destes contos ainda por traduzir, no tablet do editor e livreiro por detrás da Snob, quando há uns anos me cruzei com o seu espaço numa escola de Guimarães onde fui falar de 3D no congresso da associação de professores de expressão e comunicação visual. Foi um encontro deveras funesto para a minha carteira. O bom gosto deste livreiro, tão à vontade na ficção mais tradicional como nas vanguardas e géneros fora da caixa que tanto aprecio, traduz-se num acervo cuidado da sua livraria física e online. Se vivesse em Guimarães, suspeito que teria estantes ainda mais recheadas por literatura. Daquela que não é boa literatura, aclamada pelos críticos e tida como intemporal. A literatura da boa, que encanta e fascina os seus leitores. Se este primeiro volume da Pedante, colecção lançada pela Snob, for sintomático, espera-nos uma colecção cheia de literatura da boa.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Moorcock's Multiverse



Michael Moorcock (2014). Mooocock's Multiverse. Londres: Gollancz.

Três romances de Moorcock reunidos num dos volumes da Michael Moorcock Collection, uma edição da Gollancz que colige toda a obra do autor. Este volume, Moorcock's Multiverse, colige três dos seus romances clássicos de ficção científica.

The Sundered Worlds: A Space Opera nas mãos de Moorcock ganha uma intrigante dimensão de psicadelismo cósmico. Com a humanidade a espalhar-se por um universo que não parece conter outra forma de vida inteligente que não a humana, um dos guardiães da expansão começa a sentir uma ameaça difusa. Este homem, Conde Von Bek, com os seus sentidos sincronizados com as vibrações cósmicas das leis da física, intui que a ameaça de extermínio paira sobre o universo. Para a combater, e tentar salvar a humanidade, desafia tudo e todos e viaja até ao local mais enigmático do universo, uma zona do espaço onde, ciclicamente, surge um sistema solar que parece vir de um universo paralelo, perpendicular ao de Von Bek. O mergulho nesse sistema revelará mais do que esperado.

No centro, Von Bek encontrará um planeta que existe simultaneamente em todas as dimensões do multiverso, onde contactará seres que se apresentam como superintendentes das espécies inteligentes do multiverso. Aí é-lhe revelado o propósito da ameaça que paira sobre o universo habitado pela humanidade: transcender ou perecer, iniciando um longo caminho que permitirá à espécie inteligente capaz de transcender os limites do seu universo vir a tomar o lugar destes alienígenas envelhecidos. O multiverso é composto por camadas de universos possíveis, e aqueles que não são inóspitos à vida são habitat exclusivo de uma única espécie. Fugindo do seu universo em derrocada, numa enorme frota de refúgio, a humanidade descobre-se noutro universo, e tem de lutar pela sobrevivência contra os seus habitantes nativos, uma espécie com um profundo código de honra que não pode ser derrotada militarmente. Resta um jogo cósmico de sensações e ilusões, e apenas aqueles que exploraram o planeta que existe simultaneamente em todos os universos terão a capacidade mental para infligir a derrota e garantir o futuro da humanidade.

Moorcock usa com gosto os elementos clássicos da Space Opera. Temos intrigas, aventuras em planetas exóticos, grandiosas batalhas espaciais. Mas, ao contrário do habitual no género, estes elementos são adereços e não a razão de ser do livro. Moorcock delicia-se com uma visão de colisão entre as teorias da física e o psicadelismo, descrevendo um conceito de multiverso finito mas gigante, composto por camadas simultâneas de universos, acessíveis apenas àqueles cuja percepção espacial e temporal é alterada por forças cósmicas.

The Winds of Limbo: Moorcock nunca se interessou por absolutos. Os seus personagens icónicos têm tanto de herói como de vilão, de vítima como de vitimizadores. Neste Winds of Limbo, tudo se foca na bizarra personagem do Fireclown, um homem que sobreviveu a um acidente cuja nave se aproximou demasiado do sol. Tendo as suas percepções alteradas, compreende para lá do espaço e do tempo, tornando-se capaz de criar tecnologia que ultrapassa as limitações físicas das viagens espaciais. Fá-lo para responder a uma questão muito pessoal, tentando perceber as vantagens da inteligência sobre a consciência. Se tudo o que este personagem tem a oferecer à humanidade poderá acelerar o progresso, aquilo que realmente procura ameaça a sua existência.

Mas não mergulhamos nos dilemas e lutas deste personagem singular. Aliás, apesar do romance girar à sua volta, não é o seu principal protagonista. Acompanhamos um jovem ligado às famílias mais poderosas da democracia global que, centrada na cidade que se ergue nas montanhas da Suíça, controla os destinos de um sistema solar pelo qual a humanidade cautelosamente se expande. O aparecimento do Fireclown vai despertar numa sociedade tranquila e complacente anseios e pulsões que se julgavam há muito esquecidos, enterrados sob a civilização progressista. Entre o efeito galvanizador do personagem junto das populações e os desejos de poder por parte das elites, a democracia fica em perigo, no limiar da ditadura. Uma conspiração entre traficantes de armas e políticos ambiciosos que, utilizando a estranheza do Fireclown como pretexto, geram medo na sociedade e exploram-no para atingir o poder. Grande parte deste livro de FC passa-se em deslindar de intriga política, bem dentro daquela visão clássica do futuro como progresso tecnocrático, rumo à estabilidade e união global, com fugas ocasionais para o lado cósmico e psicadélico que associamos ao autor.

The Shores of Death:  A humanidade parece estar a viver os dias do seu ocaso. Uma estranha invasão alienígena teve curiosas consequências. A rotação do planeta foi parada, passando a estar dividido entre zonas continuamente na luz ou na penumbra. A radiação alienígena provocou alterações biológicas que, se a natureza conseguiu adaptar-se, na humanidade se traduz numa esterilidade terminal para a espécie. Os humanos deste fim dos tempos, de longas vidas que culminarão na extinção, adaptam-se como podem. Uns procuram construir antenas de rádio para enviar uma última mensagem para as estrelas, outros naves espaciais para investigar rumores de uma colónia humana em Titã. A sociedade perfeita de um futuro sem escassez começa a desmoronar-se sob pressão de seitas e autoritarismos. Resta ao último homem nascido descobrir a solução para esta crise terminal, procurando um cientista cujas pesquisas poderão tornar a humanidade imortal.

É a capacidade literária de Moorcock que segura este romance que, nas mãos de outros escritores, seria um pastelão patético e ilegível. O notável na história é a minúcia com que Moorcock transpõe para as páginas aquelas visões utópicas e algo elitistas do futuro perfeito dos anos 60, com grupos elegantes de gente próspera e esclarecida, nas suas leves túnicas, a viver em casas luxuosas cheias de tecnologias inimagináveis num planeta verdejante, sem resquícios de pobreza, sobre-população ou outros dos males que historicamente assolaram a humanidade.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Triplanetary






E.E. "Doc" Smith (1997). Triplanetary. Old Earth Books.

É a este tipo de narrativa que os fãs e conhecedores de Ficção Científica chamam de good old stuff. Valem pelo que são, marca de época, e passo na evolução do género. Para um leitor da sofisticada FC contemporânea, histórias como as que formam este Triplanetary são demasiado simplistas, com o seu foco exclusivo na aventura, desdém pelo rigor especulativo nas tecnologias futuristas, sentido binário de bem e mal, ou falta de diversidade num futuro que se percebe que os homens valentes são todos brancos e anglo-americanos e as mulheres heroínas submissas. É o tipo de ficção que hoje só tem lugar nos delírios conservadores dos revanchistas sad puppies, mas sublinhe-se que tem a sua importância como marco na evolução da FC enquanto género literário. Triplanetary foi originalmente publicado em 1934, como série de histórias na revista Amazing Stories, um dos marcos da FC clássica.

Não que este seja um mau livro. Pelo contrário, EE Doc Smith dá-nos aventura em alta rotação com a história de um agente das forças unidas dos planetas que, após se confrontar com um cientista louco nas fímbrias do sistema solar, é capturado por misteriosos anfíbios alienígenas, mas consegue libertar-se, fornecendo sempre à Terra as informações necessárias para que as forças de defesa desenvolvam naves capazes de enfrentar a tecnologia alienígena. Aventura acelerada, grandiosas batalhas especiais, alienígenas exóticos e até um toque de romance, uma vez que o agente não viverá as aventuras sozinho, estando acompanhado de uma bela passageira da nave capturada pelo cientista louco e pelo seu capitão, valorosos companheiros de aventura e infortúnio, cujas lutas terão um final inevitavelmente feliz.

Está a aqui a génese de muitos elementos da FC contemporânea, especialmente das histórias de space opera onde bravos tripulantes de naves exploram planetas exóticos e civilizações alienígenas, sempre do lado da ordem, combatendo contra inimigos violentos mas, no final, prevalecendo sempre. Felizmente, a FC evoluiu, mas é interessante e divertido revisitar estes clássicos mais simples, de uma outra era onde bastava a este género fazer pulsar o coração dos leitores com histórias de aventura.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

The Unbeatable Squirrel Girl Beats Up the Marvel Universe




Ryan North, Erica Henderson (2016). The Unbeatable Squirrel Girl Beats Up the Marvel Universe. Nova Iorque: Marvel Comics.

Um comic refrescante. Claramente mais virado para leitores juvenis, simples sem ser simplista, com uma escrita leve no argumento, acompanhada por traços dinâmicos na ilustração. Squirrel Girl é um comic cuja heroína tem os poderes de um esquilo, também capaz de comunicar com estas pequenas criaturas. Na sua identidade secreta é uma estudante de ciências computacionais. Este comic atreve-se a quebrar alguns dos elementos expectáveis do género, pertencendo à nova geração de personagens Marvel para o público do século XXI. A sua protagonista não é uma beldade explosiva (tem como principal característica ter dentes de esquilo) e os argumentos não hesitam em puxar da lógica computacional como elemento narrativo. Cada página tem ainda uma intervenção do argumentista, a quebrar barreiras do espaço ficcional com comentários divertidos sobre a história que escreve.

Neste arco, a apropriação de tecnologia desconhecida do Alto Evolucionário pelo Homem de Ferro leva a consequência inesperadas quando Squirrel Girl é duplicada. O seu clone parece ser em tudo igual à original, mas depressa constrói um plano de domínio da humanidade. Usando lógica simples, começando com os oponentes mais fracos para adquirir armas que irão neutralizar os mais fortes, derrota todos os heróis e vilões do universo Marvel.

Bom humor, num comic que não se leva a sério mas aproveita para passar mensagens sérias. Squirrel Girl é uma das séries que actualiza a mitografia da Marvel para os públicos mais exigentes do século XXI.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Comics


Curse Words #01: Há laivos de Good Omens de Gaiman e Pratchett nesta nova série da Image sobre um mago que, chegado à Terra para a conquistar em nome de um poderoso senhor extra-dimensional, fica a gostar tanto do estilo de vida que por cá é possível que decide mandar às urtigas o seu papel de conquistador e passa a dedicar-se a ser um mago de sucesso. Charles Soule escreve, e este argumentista surpreende sempre pelos seus conceitos, embora se arraste ao alongar das séries.


Descender #18: Nada como vermes gigantes a sair do chão para vincar uma space opera. Estes não são shai-hulud nem segregam a especiaria necessária aos navegadores no hiper-espaço, mas são igualmente mortíferos. Jeff Lemire a homenagear Dune, no mais recente número do seu premiado comic de ficção científica.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Zero Graus


0º C em Alpedriz, a caminho da Batalha.


Luz matinal a fazer brilhar os vitrais da igreja do Mosteiro da Batalha.



Sol de inverno na Ericeira.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

The Vital Abyss



James S. A. Corey (2015). The Vital Abyss. Nova Iorque: Orbit.

A vida na Terra não é uma utopia de futurismo simpático no universo Expanse. A larga maioria dos seus habitantes vive de rendimento básico, sem grandes perspectivas ou sonhos para lá das residências onde passam o tempo. Aqueles que conseguem sair desses estreitos limites e, através da educação superior, tornar-se membros produtivos de uma sociedade que se expande pelo sistema solar saem da experiência transformados enquanto pessoas.

Esta curta história da série segue o percurso de um jovem cientista que, da pobreza do rendimento básico, consegue seguir um percurso académico e juntar-se a uma equipe de investigação na órbita marciana, que estuda a protomolécula, o misterioso bio-artefacto alienígena que é um dos pilares da série. No processo, desumaniza-se, vivendo apenas para a ciência sem limites éticos. Acaba como prisioneiro de um grupo de rebeldes da Cintura, que o aprisiona junto dos sobreviventes da captura da estação Toth, centro de estudo da protomolécula e responsável pelo genocídio dos habitantes de Ceres como parte de uma experiência para verificar os efeitos do artefacto sobre o corpo humano. Talvez se salve do cativeiro, tornando-se analista indispensável aos rebeldes e marcianos, como especialista num mistério que se adensou e criou os portais que abriram o espaço extra-solar à humanidade.

Os Corey regressam nesta novela à premissa que iniciou o primeiro livro da série, com um aceno ao mais recente. Uma das personagens fulcrais desta história será uma das principais de Babylon's Ashes. Nestes contos, os autores expandem o universo Expanse, com outros pontos de vista que não os dos seus personagens principais, ou detalhando ao pormenor a vida e sociedade das facções que dividem a humanidade. É curiosa a forma como abordam a questão da necessidade de rendimento básico garantido, ao mesmo tempo um direito fundamental para a sobrevivência e um grilhão que mantém em condições básicas grande parte dos habitantes da Terra. Um estranho misto de atenção às discussões sobre impactos das tecnologias avançadas de automação com a ética clássica do trabalho como fonte de remuneração e validação do ser humano.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Wunderwaffen T07: Amerika Bomber



Richard Nolane, Maza (2015). Wunderwaffen T07: Amerika Bomber. Toloun: Soleil.

É sempre divertido regressar a esta série, não pelas histórias em si, mas pelo belíssimo trabalho do ilustrador. Nesta realidade alternativa, a invasão da Normandia falhou e a Alemanha Nazi, com ajuda de avançadas armas de guerra, conseguiu suster os aliados nas várias frentes de combate. As histórias levam-nos ao lado mais esotérico dos mitos urbanos sobre o nazismo e II guerra, com o obrigatório toque ocultista, vril e busca por civilizações subterrâneas. Neste episódio, descobrimos armas de controle da atmosfera e bases secretas na antártida. Mas o que realmente distingue esta série de outras similares é o trabalho do ilustrador Maza a recriar todos aqueles projectos de aeronaves futuristas que os engenheiros do Reich criaram, a maior parte dos quais não saiu do papel. Os mais estranhos, avançados ou revolucionários aviões de combate concebidos no final da guerra ganham vida com o traço rigoroso do ilustrador.